Existe uma assimetria na metodologia do RenovaBio para determinação da Intensidade Carbono (IC) do gás natural e dos biocombustíveis. Enquanto o biometano e outros biocombustíveis têm suas ICs calculadas com rigor pela RenovaCalc, a ferramenta de ACV do programa, os combustíveis fósseis, em especial o gás natural, não passam pelo mesmo processo. As ICs do GNV, gasolina e diesel foram adotadas a partir de literatura internacional, sem uma ACV específica para o contexto brasileiro conduzida pelo RenovaBio. Além disso, o RenovaBio não divulga explicitamente a IC do gás natural, apresentando apenas uma média agregada para diesel, gasolina e GNV. Essa falta de transparência e de metodologia consistente introduz incertezas significativas na IC atribuída ao gás natural. Pela metodologia do RenovaBio, o gás natural tem uma IC implícita de 80,36 gCO₂eq/MJ, portanto superior à ICs do Diesel B e da Gasolina C. Conforme demonstraremos neste artigo, há inconsistências nos valores do Poder Calorífico Inferior (PCI) e da IC do gás natural utilizados no RenovaBio. A análise evidencia que os parâmetros adotados pelo RenovaBio distorcem significativamente a meta de aquisição de biometano no Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano. Ademais, a manutenção da atual IC do gás natural implica que a substituição de diesel ou gasolina por GNV resulta em maior emissão de GEE. Em outras palavras, a adoção de parâmetros de IC baseados em literatura internacional não apenas distorce o cálculo da meta volumétrica de biometano, como também inviabilizam o papel do gás natural como vetor de descarbonização no setor de transportes brasileiro. Diante disso, torna-se crucial a realização de uma ACV para calcular com precisão a IC do gás natural no contexto brasileiro.