1. Introdução
Em 2021, surgiram tensões nos mercados energéticos em decorrência de diversos fatores, entre eles a recuperação pós-pandemia da COVID-19. Com a flexibilização das políticas de confinamento em todo o mundo, a demanda por energia ultrapassou os níveis pré-pandêmicos, sem que a oferta conseguisse acompanhar esse ritmo. Os preços dos combustíveis já registravam forte alta em 2021, e a situação agravou-se de forma significativa, transformando-se em uma crise energética mundial após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. O gás natural atingiu preços históricos e a eletricidade também se encareceu em diversos mercados.
Nessa conjuntura, as famílias de menor renda e com instabilidade laboral foram as mais afetadas, pois tiveram dificuldades para pagar os serviços energéticos que permitem satisfazer suas necessidades básicas de energia (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025). Entre 2020 e 2022, o preço do gás doméstico na União Europeia aumentou 55,80% e o da eletricidade, 24,15% (Figura 1).
Figura 1 – Preços de gás e eletricidade para consumidores domésticos da União Europeia, dados semestrais 2020-2022

Fonte: Elaboração própria com dados de Eurostat (2025).
Na América Latina e no Caribe (ALC), os efeitos da invasão russa foram indiretos, embora o conflito tenha contribuído para a alta dos preços e para perturbações nas cadeias de suprimento de energia na região (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025). Segundo a OLADE (2024), a inflação energética anual de junho de 2022 foi de 18,38% em comparação com junho de 2021. Esse aumento esteve relacionado tanto ao conflito entre Rússia e Ucrânia quanto ao desmonte dos subsídios aplicados anteriormente durante a pandemia e à recuperação econômica do período pós-pandemia.
Diante desse contexto, este ensaio analisa a incidência da pobreza energética na Argentina, na Colômbia, na Alemanha e na Espanha em 2022, assim como as políticas adotadas nesses países para mitigar essa problemática.
2. O conceito de pobreza energética
Na literatura, não há consenso quanto ao conceito da pobreza energética, o que evidencia a complexidade das questões relacionadas à energia e sua dependência das diferentes realidades sociais (Bouzarovski e Petrova, 2015).
Uma das formas mais recorrentes de caracterizar a pobreza energética está associada à falta de acesso a fontes modernas de energia (Bouzarovski e Petrova, 2015; González-Eguino, 2015). González-Eguino (2015) definiu essa perspectiva como uma abordagem tecnológica, na qual a ausência de conexão à rede elétrica e o uso intensivo de fontes tradicionais para cozinhar, lenha ou carvão, são fatores que permitem identificar a pobreza energética em países em desenvolvimento.
Por sua parte, Bouzarovski e Petrova (2015) propuseram uma definição que entende a pobreza energética como um problema global, que afeta tanto os países desenvolvidos quanto os países em desenvolvimento. Eles a definiram como a incapacidade das famílias de acessar níveis adequados de serviços energéticos domésticos que permitam a satisfação das necessidades humanas e materiais (Bouzarovski e Petrova, 2015).
De modo geral, a pobreza energética é reconhecida como um fenômeno multidimensional, em que os determinantes são uma combinação de baixa renda, despesas elevadas com energia e baixa eficiência energética das edificações (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025).
A pobreza energética é um fenômeno evidente tanto na América Latina quanto na Europa, embora suas formas de manifestação difiram substancialmente entre as duas regiões. Na América Latina, está associada sobretudo à falta de acesso à energia, enquanto nos países desenvolvidos se vincula principalmente à capacidade de pagamento pelos serviços energéticos (Soares et al., 2023). Nos últimos 25 anos, a América Latina e o Caribe ampliaram significativamente o acesso à eletricidade, mas ainda existem lacunas, sobretudo em áreas rurais, além de desafios ligados à qualidade do fornecimento e à capacidade de pagamento, que continuam a determinar a privação energética na região (Soares et al., 2023; Melo, Rodrigues e Grotera, 2025; Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025).
3. A pobreza energética na Alemanha, na Argentina, na Colômbia e na Espanha
Para esta análise, a pobreza energética foi definida com base em um dos indicadores de despesa mais utilizados na literatura, o Ten Percent Rule (TPR), proposto por Boardman em 1991 para o contexto do Reino Unido. O indicador TPR classifica um domicílio em situação de pobreza energética quando destina mais de 10% de sua renda para satisfazer suas necessidades energéticas básicas. Esse indicador apresenta vantagens, como ser uma medida clara e de fácil aplicação.
A unidade de análise deste estudo são os domicílios, considerando dados referentes ao ano de 2022, a partir das seguintes pesquisas: Painel Socioeconômico Alemão (SOEP), Pesquisa Nacional de Gastos dos Domicílios da Argentina (ENGHo), Pesquisa de Qualidade de Vida (ECV) da Colômbia e Pesquisa de Orçamentos Familiares da Espanha (EPF). À exceção dos outros países, a análise da Argentina foi realizada com a edição 2017-2018, por ser a última disponível no país. No entanto, as despesas energéticas das famílias argentinas foram atualizadas com os preços de eletricidade, gás encanado e GLP de 2022. Dessas pesquisas foram extraídas variáveis de interesse, como despesa energética e renda familiar.
A Figura 2 mostra os resultados do indicador de pobreza energética TPR para a Alemanha, Argentina, Colômbia e Espanha em 2022. A pobreza energética afetou com maior incidência os domicílios europeus, ultrapassando 20% das famílias tanto na Espanha quanto na Alemanha. A Argentina apresentou a menor taxa de pobreza energética.
Figura 2 – Proporção de famílias em pobreza energética segundo o indicador TPR na Alemanha, Argentina, Colômbia e Espanha, 2022

Fonte: Elaboração própria com dados de SOEP, ENGHo, ECV e EPF.
É importante destacar que, na Argentina e na Colômbia, os subsídios energéticos desempenham um papel relevante, pois reduzem os custos que os usuários residenciais precisam arcar pelo consumo de energia (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025).
Na Colômbia, o esquema tarifário de eletricidade baseia-se em uma classificação dos bairros denominada “estratificação socioeconômica”. Esse sistema agrupa os bairros em seis níveis: as famílias dos estratos 1, 2 e 3 recebem subsídios, enquanto as dos estratos 5 e 6 pagam contribuições adicionais para financiar parcialmente esse benefício. Já o estrato 4 não recebe subsídios nem paga sobretaxas. O acesso a esse apoio também depende do nível de consumo e da altitude em que o município está localizado.
Apesar desse mecanismo, 21,04% das famílias destinam uma parcela excessiva de sua renda para satisfazer necessidades energéticas básicas. Essa situação está relacionada ao aumento contínuo das tarifas de energia elétrica após 2021, que se intensificou ao longo de 2022. No período pós-pandemia, o aumento dos preços da energia na Colômbia foi superior ao registrado em outros países da América Latina e do Caribe (Corficolombiana, 2024).
Na Argentina, devido à pandemia da COVID-19, o congelamento das tarifas de energia elétrica e gás, estabelecido pelo Decreto 1020 de 2020, foi mantido por um longo período. Durante os anos de 2020 e 2021, a diferença entre as tarifas pagas pelas famílias e o custo da geração de energia aumentou significativamente, assim como o montante dos subsídios do setor público nacional (Poggiese, Ibañez Martin e Martinez, 2024). A relevância dos subsídios energéticos chegou a 4% do PIB nacional em 2021.
Em 2022, a Argentina deixou de adotar um subsídio universal à energia e passou a aplicar um esquema de focalização de acordo com o nível socioeconômico das famílias, com o objetivo de concentrar os subsídios nos setores mais vulneráveis e reduzir gradualmente a assistência estatal aos setores de maior renda (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025).
Entretanto, a Alemanha não dispõe de uma estratégia específica para o enfrentamento da pobreza energética. O governo federal aborda a pobreza energética dentro do quadro geral de combate à pobreza monetária e multidimensional (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025). Já no contexto da crise energética de 2022, o governo alemão implementou medidas para conter o aumento dos custos de energia e promoveu campanhas de incentivo à eficiência energética.
Para ter uma referência sobre a evolução da pobreza energética na Alemanha, Buchner e Rehm (2025) analisaram a questão utilizando microdados da pesquisa SOEP (2010–2020). Com o indicador TPR, eles observaram uma redução da pobreza energética, que passou de 26,5% em 2013 para 15,3% em 2019, atribuída à diminuição das despesas com energia nesse período. No entanto, os dados da Figura 1 mostram que esse número voltou a subir para 22,13% em 2022, evidenciando a vulnerabilidade das famílias frente ao aumento dos preços da energia doméstica.
Em 2022, o governo espanhol adotou um amplo conjunto de medidas para mitigar o impacto da crise energética sobre os consumidores vulneráveis, entre as quais se destacam as seguintes: i) Bônus social de energia elétrica, que permitiu um desconto de 40% na conta de luz para famílias trabalhadoras de baixa renda afetadas pela crise (Decreto-Lei Real 18/2022); ii) Bônus social térmico, no qual o valor do subsídio aumentou de 25 para 40 euros anuais e a ajuda média (que varia de acordo com a zona climática) subiu para 375 euros anuais por beneficiário; iii) Garantias de desconexão, em que o governo proibiu a desconexão de consumidores vulneráveis até o final de 2022, sendo prorrogada até dezembro de 2023 (Ibañez Martin, Nastasi e Melo, 2025).
Apesar dessas medidas, os desafios da pobreza energética permanecem na Espanha. De acordo com o Eurostat (2025), 27,3% da população espanhola declarou, em 2023, viver em habitações sem aquecimento adequado durante o inverno. Nas cidades, essa proporção chegou a 27,6%, enquanto nas áreas rurais foi de 24,2%.
4. Conclusões
Em 2022, a pobreza energética afetou principalmente a Espanha e a Alemanha. A crise energética no período pós-pandemia, marcada pelo aumento dos preços da energia na União Europeia, resultou em despesas excessivas de energia em relação à renda das famílias. A Argentina apresentou a menor taxa de pobreza energética.
No caso da América Latina, os subsídios energéticos na Argentina e na Colômbia contribuem para explicar as taxas relativamente mais baixas de pobreza energética em comparação com os países europeus, pois reduzem os custos que as famílias de menor renda precisam assumir pelo consumo de energia.
Para mitigar os efeitos do aumento dos preços da energia, na Europa foram implementadas medidas como o congelamento de tarifas, subsídios focalizados à população mais vulnerável e a proibição da desconexão do serviço por falta de pagamento.
Apesar dessas políticas, a crise energética evidenciou a vulnerabilidade das famílias diante dos fortes aumentos no custo da energia. Por isso, é fundamental que a pobreza energética continue a ser tratada como uma prioridade na agenda política.
5. Bibliografia
Bouzarovski, S., & Petrova, S. (2015). A global perspective on domestic energy deprivation: Overcoming the energy poverty–fuel poverty binary. Energy Research & Social Science, 10, 31-40.
Corficolombiana. (2024). Una mirada a la evolución tarifaria de la energía. https://investigaciones.corfi.com/macroeconomia-y-mercados/informe-semanal/una-mirada-a-la-evolucion-tarifaria-de-la-energia/informe_1546328
Eurostat. (2025). Data Browser. https://ec.europa.eu/eurostat/databrowser/explore/all/envir?lang=en&subtheme=nrg.nrg_price&display=list&sort=category
González-Eguino, M., 2015. Energy poverty: an overview. Renewable and Sustainable Energy Reviews, 47, 377–385. https://doi.org/10.1016/j.rser.2015.03.013.
Ibañez Martin, M., Nastasi, F., Melo, Y.E. (2025). Luces sobre la desigualdad: ¿Es la energía una forma de desigualdades entre, y dentro, América Latina y Europa? Fundación EU-LAC y Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO). https://eulacfoundation.org/es/luces-sobre-la-desigualdad-es-la-energia-una-forma-desigualdades-entre-y-dentro-america-latina-y
Melo, Y.E., Rodrigues, N., Grottera, C. (2025). “Energy Poverty and Criminality in the Brazilian Favelas: An Empirical Test of a Deductive Hypothesis”, em Energia Progresiva: An Intertemporal Analysis of Latin America and the Caribbean’s Energy Landsc. in the Industrial Age, Springer Nature, 2025, p. 299–325. doi: 10.1007/978-3-031-68846-1_12.
OLADE. (2024). Nuevo Indicador Inflación Energética de América Latina y el Caribe (IE-LAC). https://www.olade.org/noticias/organizacion-latinoamericana-de-energia-olade-presenta-nuevo-indicador-inflacion-energetica-de-america-latina-y-el-caribe-ie-lac/
Poggiese, M., Ibañez Martin, M., Martínez, C. (2024). Segmentación de tarifas energéticas e incidencia distributiva en Argentina. Su vinculación con la pobreza energética. Instituto de Investigaciones Económicas y Sociales del Sur. https://iiess.conicet.gov.ar/wp-content/uploads/2024/03/Poggiese-Ibanez-Martin-Martinez.pdf
Soares, R. S., Weiss, M., Lampis, A., Bermann, C., & Hallack, M. (2023). Pobreza energética en los hogares y su relación con otras vulnerabilidades en América Latina. El caso de Argentina, Brasil, Colombia, Perú y Uruguay. Banco Interamericano de Desarrollo (BID).
Sugestão de citação: Poveda, Y. E. M.; Martin, M. M. I.; Nastasi, F. Pobreza energética em tempos de crise: evidências da Alemanha, Argentina, Colômbia e Espanha. Ensaio Energético, 15 de outubro, 2025.
Autora do Ensaio Energético. Economista e mestre em Economia pela Universidade Nacional de Colômbia, sede Medellin, doutora em Economia pela Universidade Federal Fluminense e membro do Grupo de Energia e Regulação (GENER/UFF).

María Maria Ibañez Martin
Profesora e investigadora del Departamento de economía de la Universidad Nacional del Sur - Instituto de Investigaciones Económicas y Sociales del Sur (IIESS- CONICET), Argentina.

Federico Nastasi
Investigador asociado del Centro Studi di Politica Internazionale, Italia.




